O Velho Banqueiro vive há mais de quarenta anos no velho palacete de Sintra. Começou pobre, subiu a pulso e fez uma brilhante carreira. Hoje é rico, é muito rico, e o velho palacete de Sintra é uma das suas maiores conquistas. Nunca casou porque não teve tempo. Viveu do trabalho e para o trabalho.
Apesar de ter levado uma vida solitária, o Velho não vive só no velho palacete. O seu único sobrinho, um dos seus afilhados e as respectivas esposas vivem consigo e às suas custas. São boémios, inúteis e carácter é coisa que não sabem bem o que é. Não gostam do Velho, nem fazem grande questão de demonstrar por ele algum afecto.
O Velho nunca foi dado a grandes sentimentos e, por isso, considera a presença dos dois casais como um mal necessário. Encontram-se apenas para jantar e, nessa altura, mantêm quase sempre silêncio.
Entre si, os dois casais mantêm uma amizade de conveniência. O seu objectivo é comum, ficar com a fortuna do velho depois dele morrer. É isso que consta no testamento e, por isso, resta-lhes esperar. O Velho tem oitenta e cinco anos e não durará muito mais tempo. Ou durará?
'Talvez dure'- pensam em conjunto. 'O odioso Velho, faz caminhadas e natação todas as manhãs e parece estar teso como um pêro. Não será melhor apressar as coisas?'
Combinam entre si colocar umas gostas de arsénico na água do jantar. Já ouviram falar que o envenenamento por arsénico é quase indetectável. 'Não vai morrer logo, mas sempre se apressam as coisas.'
O acesso à água que o Velho bebe é muito fácil, uma vez que o Mordomo coloca sempre a bandeja com as bebidas no aparador traseiro enquanto se dirige à cozinha para dar a últimas indicações sobre o jantar. Uma das esposas entrará na sala de jantar, precisamente quando o mordomo sair e colocará umas gostas de veneno no copo. O copo do Velho também é fácil de identificar, é sempre o que está mais à esquerda uma vez que ele exige ser o primeiro a ser servido.
Iniciam o esquema planeado. É tudo muito fácil, O Velho e o Mordomo não dão por nada. Basta esperar resultados.
Passa um mês, passam dois meses, três, quatro e... nada acontece. O Velho continua com os mesmos hábitos e com uma saúde de ferro. 'Estará a fingir que está bem de saúde?' - pensam ao ver que o seu plano parece não estar a dar resultados.
Porém, há um dia em que o Velho não aparece para tomar o pequeno almoço às sete e trinta, como é seu hábito. Às oito o Mordomo sobe ao quarto para encontrá-lo em cima da cama com um tiro na cabeça. O revólver está na sua mão direita. O Velho suicidou-se. Será?
Ao funeral segue-se a leitura do testamento. Ao Sobrinho e ao Afilhado o Velho deixa apenas o suficiente para que vivam bem até ao fim dos seus dias. O resto dos bens e fortuna ficam para o seu fiel Mordomo.
Más notícias, não é possível que o Velho lhes tenha feito tal. O Sobrinho sente-se mal, desmaia e é conduzido ao hospital. Fazem-se exames médicos. Parece que não foi apenas um desmaio devido à emoção. Mais exames médicos concluem que tem cancro sem quaisquer possibilidades de cura.
A polícia investiga o eventual suicídio do Velho e descobre vestígios de arsénio num copo usado no jantar do dia anterior. Uma análise à impressões digitais presentes no copo leva a concluir que o mesmo foi utilizado pelo sobrinho. Há no entanto uma dúvida. 'Porque razão foram todos os copos lavados menos o que continha vestígios de arsénico?'
As investigações prosseguem e as novas análises médicas feitas ao Sobrinho concluem que o seu estado de saúde se deve a envenenamento por arsénico. As esposas e o Afilhado são acusados e condenados por tentativa de envenenamento. A pena agrava-se quando um mês mais tarde o Sobrinho acaba por morrer.
O Mordomo, agora senhor do velho Palacete de Sinta, continua a administrar os bens que um dia foram do Velho.
Quanto ao suicídio, ainda hoje constitui um mistério, mas houve alguém que lucrou imenso com ele...