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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Guillaume Tell de Gioachino Rossini no Rossini Opera Festival 2013

Assisti no dia 20 de Agosto à última das récitas da ópera Guillaume Tell, integradas no Rossini Opera Festival de 2013.

Foi com grande expectativa que me desloquei mais uma vez a Pesaro e o Guillaume Tell, ponto alto do festival deste ano, não desiludiu.

Como sempre, a ópera principal do festival, é posta em cena na Arena Adriática, um recito desportivo, adaptado muito razoavelmente para o efeito. Desta forma, é possível ter bastante mais publico a assistir do que no pequeno Teatro Rossini.

O elenco da récita foi o seguinte:

Guillaume Tell: Nicola Alaimo
Arnold Melcthal: Juan Diego Flórez
Walter Furst: Simon Orfila
Melcthal: Simone Alberghini
Jemmy: Amanda Forsythe
Gesler: Luca Tittoto
Rodolphe: Alessandro Luciano
Ruodi: Celso Albelo
Leuthold: Wojtek Gierlach
Mathilde: Marina Rebeka
Hedwige Veronica Simeoni

Direcção: Maestro Michele Mariotti
Encenação: Graham Vick
Coreografia: Ron Howell

Orquestra e coro do Teatro Comunale di Bologna

Devo referir desde já que a do ponto de vista vocal a récita esteve sempre a um nível que considero de alta qualidade. No entanto, há algumas interpretações que merecem uma referência mais detalhada.

Nicola Alaimo esteve magistral no papel principal. A sua voz quente e possante esteve sempre fresca e nunca esforçada, mesmo nas partes mais exigentes e difíceis. Devo relembrar que em algumas partes da ópera o barítono enfrenta desafios muito idênticos aos de um barítono Verdiano.

Juan Diego Flórez interpretou o papel mais difícil desta ópera do ponto de vista vocal. Alías, na informação distribuída com o libretto há um capítulo inteiro dedicado à discussão sobre o tipo de tenor que deve interpretar Arnold. Resumido, é um papel muito longo, que exige, por um lado bastante potência vocal e por outro muita flexibilidade. Para complicar as coisas, o tenor tem uma cena e ária longuíssima no início do quarto acto, depois de mais de 3 horas de ópera, e que, para complicar as coisas, é o momento pelo qual todos esperam.
Flórez, como devem calcular, foi mais uma vez a estrela do festival. Embora o tenor interprete a ária que referi anteriormente com alguma frequência nos seus recitais, interpretou pela primeira vez na sua carreira o papel de Arnold na totalidade.
Esteve bem, esteve muito bem, mas notei-lhe algum cansaço no final da ária do quarto acto. Isto notou-se perfeitamente quando começou a prolongar menos o final das frases e também no dó de peito final, que foi pouco potente e curto. De qualquer forma, devo salientar que no geral, Flórez esteve ao seu nível, isto é, provou que é dos melhores cantores da actualidade.

A revelação da noite foi, para mim, Amanda Forsythe. O soprano americano interpretou o papel masculino de Jemmy, o jovem filho de Guillaume. A cantora tem um timbre fantástico e uma flexibilidade vocal extraordinária. Para além disso, é uma pessoa de pequena e magra estatura, o que do ponto de vista cénico foi perfeito para o papel (a senhora francesa que estava sentada ao meu lado chegou a pensar que a cantora era mesmo um rapaz soprano).

Marina Rebeka esteve a um bom nível vocal, mas considero a sua interpretação um pouco inferior às dos outros cantores que destaquei.

A encenação de Vick, foi melhor do que o que eu estava à espera. Dominou o cenário de pareces brancas que foi sendo preenchido com os mais diversos adereços (cenários e figurinos de Paul Brown). Penso que a encenação, não obrigou os cantores a esforços desnecessários nem a fazerem figuras ridículas, o que já não é nada mau.

O ROF decidiu não cortar os dois bailados incluídos na ópera (bem ao gosto do publico francês). Não sendo eu um grande apreciador de bailado, devo no entanto dizer que a coreografia de Ron Howell foi uma desgraça. E mais não digo, a não ser que se ouviram muitos "bhuuuusss" na sala, principalmente no final do bailado do teceiro acto.

A direcção de Mariotti, maestro de tenra idade, foi bastante boa. A abertura for excelentemente interpretada e não houve descoordenações ao longo de toda a récita.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Stuarda da DiDonato / Joyce DiDonato's Stuarda

(In English bellow)

Considero Joyce DiDonato uma das melhores cantoras da actualidade. No entanto, não entendo porque decidiu interpretar o papel de Maria Stuarda na ópera homónima de Gaetano Donizetti. Como se pode ver (ouvir) nos vídeos que se seguem captados na récita de 31 de Dezembro no MET, a voz da cantora está longe de ser ideal para este papel.

Terá sido DIDonato inspirada pela interpretação de Dame Janet Baker nos anos 1980?



I consider Joyce DiDonato one of the best singers of our days. However, I do not understand why she decided to play the role of Maria Stuarda in the opera with the same name by Gaetano Donizetti. As you can see (hear) in the videos that follow, captured in Dec. 31 at the MET, the singer's voice is far from ideal for this role.

Does DiDonato been inspired by the interpretation of Dame Janet Baker in the 1980s? I don't know...


domingo, 2 de setembro de 2012

Ciro in Babilonia (Rossini Opera Festival 2012)



A ópera Ciro in Babilonia marcou a minha estreia no Rossini Opera Festival. Assiti à quarta récita desta ópera, no dia 19 de Agosto.

O elenco foi o seguinte:

Baldassare - Michael Spyres
Ciro - Ewa Podles
Amira - Jessica Pratt
Argene - Carmen Romeu
Zambri - Mirco Palazzi
Arbace - Robert McPherson
Daniello - Raffaele Costantini

Encenação - Will Crutchfiled

Orquestra e coro do Teatro Comunale di Bolonha dirigidos pelo Maestro Davide Livermore.

O libretto de Francesco Aventi relata a história de Baldassare, rei da Babilónia, que se encontra cercado na sua cidade pelas tropas de Ciro, rei da Pérsia (sinopse). Baldassare rapta e apaixona-se pela mulher de Ciro e este faz tudo para salvá-la.

A encenação de Will Crutchfield, transporta-nos para uma sala de cinema mudo dos anos 30 do século XX. Para os mais cépticos, esta transposição poderá parecer à partida estranha, uma vez que a ópera retrata cenas bíblicas, nos entanto, devo dizer que foi bastante eficaz e agradável.
Durante a abertura o público, constituído por elementos do coro, entra na sala de cinema e toma o seu lugar. A ópera é assim apresentada como se fosse um filme a preto e branco, com os cantores como personagens principais e os cenários projectados em telas no fundo de palco. Por vezes é usada uma tela transparente na frente de palco onde são projectados uns efeitos que fazem parecer que se está mesmo a ver um filme de cinema mudo.
Curiosamente, os figurinos das personagens masculinas respeitam, aparentemente, os trajes de época, mas os das personagens femininas são muitos inspirados nos anos 20/30 do século passado.


Quanto às vozes:

Carmen Romeu, Mirco Palazzi e Raffaele Costantini estiveram bem nos seus papeis secundários e não desvirtuaram o trabalho dos cantores principais, tendo constituído um bom elenco de suporte.

Robert McPherson, tenor, interpretou Arbace, personagem secundária, mas com uma ária tipicamente rossiniana no primeiro acto. A voz é ligeira, mas ouve-se bem (o Teatro Rossini não é muito grande, penso que será um pouco mais pequeno que o S. Carlos), o timbre não é dos mais agradáveis, mas tem um bom legatto e domina bem as passagens de coloratura. No registo agudo, denota-se um certo stresse e, para compensar uma certa diminuição de volume, o cantor parece entrar em esforço, o que se traduz em alguma estridência.

Michael Spyres, tenor interpretou Baldassare, rei da Babilónia. O cantor de timbre muito agradável esteve em excelente forma, e "portou-se" como um verdadeiro tenor rossiniano, com uma excelente agilidade e um registo agudo cheiro e nada stressado (penso que terá atingido por várias vezes o ré sobreagudo). No segundo acto interpreta o que parece ser uma "ária de loucura", de forma extraordinária, mesmo que passe grande parte do tempo em cima de uma passadeira rolante. Uma característica interessante da voz do cantor é que tem um registo grave bastante bem suportado. Isto é importante porque Rossini usou e abusou do registo grave (e do agudo também).

Jessica Pratt, soprano, interpretou Amira, mulher de Ciro. A cantora tem uma voz cheia e potente (quase lírica), de timbre agradável e com um bom legatto. Denotei no entanto um uso excessivo do pianíssimo nas passagens mais agudas, principalmente no primeiro acto. Isto pode ser apenas uma questão de gosto e não uma dificuldade técnica, uma vez que nas cabalettas os agudos eram alcançados em forte sem dificuldade. A coloratura não foi também perfeita no primeiro acto, tendo melhorado no segundo. No geral achei o desempenho de Pratt muito bom, as críticas que faço são apenas de pormenor. 

Ewa Podles, contralto,  interpretou Ciro, personagem central da ópera. Já falei várias vezes aqui no blogue da voz de Podles uma vez que é das minhas cantoras favoritas. Já tinha ouvido a cantora em Barcelona a interpretar Orsini na ópera Lucrezia Borgia de Donizetti e desta vez fiquei ainda mais satisfeito com a sua prestação. Tudo em Podles é perfeito. A voz é escura (escuríssima), maleável, e potente e cheia em todos os registos (a cantora tem 3 oitavas de voz).
Na récita, a cantora foi uma verdadeira rainha vocal, embora tenha interpretado o papel de "rei"! Ciro tem duas grandes (longas) árias, uma no primeiro acto e outra no segundo, quase no fim da ópera. Podles interpretou de forma perfeita estas árias (vocal e cenicamente), fazendo delas o ponto alto da récita. No segundo acto os aplausos foram tantos e tão prolongados que a cantora teve que "sair da personagem" para agradecer.
Para além da voz, Podles é também uma boa actriz, o que abona ainda mais a seu favor.


Depois da récita tive oportunidade de cumprimentar Michael Spyres, Jessica Pratt e, claro, Ewa Podles. Apesar de cansados, todos foram bastante simpáticos e distribuíram autógrafos. Com Podles tirei também a fotografia que está destacada na barra lateral do blogue, porque afinal como alguém dizia, "a Podles é um fenómeno da Natureza!".




quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Anna Bolena (Gaetano Donizetti) - MET HD Live

No passado dia 15 de Outubro assisti na Gulbenkian a uma récita da ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti (libretto de Felice Romani) transmitida em HD vídeo directamente no MET de Nova Iorque.

Este foi o meu primeiro contacto com o MET HD Live e confesso que na generalidade fiquei satisfeito, embora considere que a experiência está longe da que se vivencia num teatro de ópera. Em primeiro lugar a ópera em "filme" possibilita um visionamento mais próximo e "íntimo" com os cantores, facto que considero positivo, mas que reconheço poder ser uma desvantagem para quem assiste ao espectáculo no teatro. Os movimentos no palco de um grande teatro como é o MET devem levar em consideração que há espectadores bastante afastados e devem ser, por isso, bastante largos e abrangentes, facto que não se aplica de forma alguma aos movimentos usados para filme.
No que respeita ao som, sou mais crítico. Considero que o volume dos altifalantes esteve injustificavelmente alto, prejudicando a audição e introduzindo distorções que prejudicaram a audição (para mim, foi nítida a distorção do registo agudo do tenor). Num teatro de ópera, sem microfones, os cantores não são ouvidos com tal intensidade sonora, por muito pequeno que seja o teatro, pelo que penso que uma diminuição no volume, aproximaria mais esta experiência ao que se passa na realidade e não introduziria as distorções referidas. Há, no entanto, uma vantagem: as "malfadadas" tosses são praticamente inaudíveis.

Quanto à récita em si, contou com um elenco de luxo, ou não estivéssemos a falar do MET:

Maestro: Marco Armiliato 
Anna Bolena: Angela Meade 
Giovanna Seymour: Ekaterina Gubanova 
Smeaton: Tamara Mumford 
Lord Riccardo Percy: Stephen Costello 
Enrico VIII: Ildar Abdrazakov

e a com a seguinte produção:

Encenador: David McVicar 
Cenários: Robert Jones 
Figurinos Jenny Tiramani 
Luzes Paule Constable 
Coreografia: Andrew George

A encenação de David McVicar está excelente. Embora eu aprecie algumas encenações com transposição temporal (tão comuns na Europa), considero que as encenações de época, como esta de McVicar, são bastante mais eficientes, conseguindo-nos aproximar bastante mais daquilo que o compositor e o libretista idealizaram. O que não desculpo aos encenadores é o facto de muitas vezes "inventarem" posições para os cantores que são tudo menos apropriadas à sua projecção vocal. Nada disto se passou neste caso. Os cenários, figurinos e movimentação dos cantores estiveram perfeitos.

Quanto ao elenco, gostaria em primeiro lugar de destacar a condução de Armiliato. O maestro apresenta-se regulamente no MET e é um especialista em bel canto. Demonstrou isso nesta récita, que conduziu com maestria e em perfeita sintonia com os cantores.

O coro do MET esteve excelente, sem qualquer descoordenação e com uma união de vozes que faz dele um dos melhores (ou o melhor) coros de ópera da actualidade.

Antes de falar dos principais solistas gostaria de referir que a minha apreciação está limitada pelo facto de nunca ter ouvido nenhum deles ao vivo e, por isso, desconhecer as suas características vocais em termos de projecção e volume.

Anna Bolena é um dos papéis mais difíceis do repertório de bel canto. A ópera é longa e o soprano está em palco grande parte do tempo. Culmina com uma das cenas mais longas e de maior dificuldade técnica que conheço.
Quando há uns anos ouvi dizer que Anna Netrebko interpretaria Anna Bolena fiquei deveras surpreendido, porque nunca pensei que a cantora alguma vez o tentasse fazer. Como sabem, tenho algumas reservas quanto a Netrebko e não a acho uma "belcantista" porque lhe faltam técnica (a nível da respiração), leveza e agilidade vocais (para além de não ter o Mi bemól sobre-agudo, que, não sendo necessário é sempre uma cereja no cimo do bolo).
Apesar destas reservas da minha parte, considero que Netrebko interpretou uma extraordinária Anna Bolena. A voz está mais escura, o que se adapta bem á linha vocal do papel e para além disso, o timbre está seguro e constante. Do ponto de vista cénico a cantora é uma actriz exímia, talvez a melhor da actualidade.
Dentro de um nível de interpretação de qualidade superlativa ao longo de toda a récita, gostaria de salientar que, na minha opinião, houve "duas Netrebkos". Uma Netrebko mais comedida e a poupar-se vocalmente no primeiro acto e uma Netrebko absolutamente fantástica no segundo acto. Prova disto, é o facto de a cabaletta do primeiro acto ter sido encurtada para metade e de no ensamble que finaliza este acto a cantora deixar de cantar no final para depois interpolar um ré sobre-agudo, por sinal, de muitíssimo boa qualidade. Devo referir que tudo isto acontece de forma quase imperceptível e sem prejudicar a obra do ponto de vista vocal ou cénico.
No segundo acto, Netrebko protagonizou os melhores momentos de toda récita. O dueto com Giovanna Seymour (Gubanova) foi extraordinário, agora já com Netrebko sem quaisquer economias de esforço e perfeita cénica e vocalmente. No entanto, o que foi para mim o momento mais emocionante da noite, foi a interpretação da ária Al dolce guidame, que faz parte da grande cena final. Aqui Netrebko "mostrou-me" que é efectivamente uma excelente cantora e que tem o seu instrumento vocal totalmente dominado, com um legatto e uns pianissimi praticamente perfeitos. Para além de tudo isto a cantora no final da ária  faz a interpolação de um dó sobre-agudo em piano que me fez "colar à cadeira". A cabaletta final, Coppia iniqua, embora muito bem interpretada, não teve e mesma qualidade, principalmente ao nível das passagens de coloratura mais exigente.

O papel de Giovanna Seymour foi interpretado pelo mezzo-soprano Ekaterina Gubanova. A cantora esteve muito bem durante toda a récita. Possui uma voz de belo timbre e com corpo. Os agudos, embora afinados, pareceram-me um pouco nervosos, mas nada que pusesse em causa a qualidade da interpretação. No dueto com Netrebko, Gubanova correspondeu do ponto de vista vocal, embora Netrebko seja imbatível do ponto de vista cénico. Na ária do segundo acto, a cantora demonstrou uma vez mais que é detentora de uma bela voz, mas, com pena minha, a cabaletta não teve repetição.

Ildar Abdrazakov, baixo, interpretou Enrico VII. O cantor é detentor de uma bela voz, com bastante corpo nos registos grave e agudo. Notei-lhe ao princípio uma certa dificuldade nas passagens mais rápidas no registo grave, que rapidamente desapareceu (penso que se terá devido ao facto de voz se encontrar ainda "fria"). Como actor Abdrazakov foi efectivamente um rei, com uma portentosa presença em palco. Este é um cantor que pretendo acompanhar com atenção.

O ponto fraco da récita foi o tenor Stephen Costello. A voz tem um vibrato rápido no registo agudo que a torna desagradável ao ouvido. Para além disso o papel de Percy tem uma tessitura demasiado aguda para o cantor e tal denotou-se na forma como se foi poupando encurtando ligeiramente o final das frases. Como actor foi bastante convincente. 
Devo fazer aqui uma ressalva para o facto de esta minha consideração poder estar errada, uma vez que foi a voz de Costello a que me pareceu mais distorcida pelo volume exagerado dos altifalantes da sala.

O mezzo-soprano Tamara Mumford interpretou muito bem a personagem Smeanton. A sua voz tem corpo no registo grave e é bastante maleável, fazendo lembrar um contralto. A cantora vestiu muito bem este papel masculino.


Globalmente considero que esta Anna Bolena foi de qualidade superlativa, com um conjunto de cantores do que há de melhor na actualidade.
Tinha planeado assistir a uma récita no MET no próximo mês de Fevereiro, mas tal não me vai ser possível. Tenho consciência que perderei um espectáculo extraordinário, mas espero ter ainda oportunidade de ouvir Netrebko a interpretar Anna Bolena.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Cavaradossi do Paul Ferreira / Paulo Ferreira's Cvaradossi

Estes são alguns dos termos que a crítica alemã usa para descrever o Cavaradossi do Paulo Ferreira em Hof:

Português com voz esplendorosa/gloriosa;
Voz que mostra emoções (dor);
Voz que toca no coração;
Cantor à italiana.

Muitos parabéns Paulo! Estamos orgulhosos de si.




These are some of the terms that german critics use to describe Paulo Ferreira's Cavaradossi in Hof:

Portuguese with a splendid / glorious voice;
Voice that shows emotions (pain);
Voice that touches the heart;
Italian style singer.

Congratulations Paul! We're proud.

domingo, 18 de setembro de 2011

Così fan tutte (Mozart) - Centro de Artes e do Espectáculo de Portalegre (16/09/2011)


No passado dia 16 de Setembro, assisti à récita única da ópera Così fan tute de Mozart no Centro de Artes e do Espectáculo de Portalegre. Foi uma agradável surpresa verificar que o espectáculo coincidia com as minhas férias, permitindo-me assim, assistir pela segunda vez a uma récita de ópera em terras alentejanas (a primeira vez foi o Trovador de Estremoz onde tive oportunidade de ouvir a grande Fiorenza Cossotto nos ensaios).

Antes de falar da récita de Portalegre, devo salientar que a sala de espectáculos do Centro de Artes e do Espectáculo foi para mim uma surpresa agradável. A sala tem uma plateia de dimensão razoável e dois balcões. O revestimento é de madeira escura e é possível adaptar um fosso de orquestra que, embora um pouco fundo (não me foi possível ver a maestrina do locar onde me encontrava), a torna ideal para um espectáculo deste tipo.

Quanto ao Così fan tutte, o elenco foi o seguinte:

Fiordiligi - Carmen Matos (soprano)
Dorabella - Margarida Marreiros (soprano)
Despina - Joana Gil (soprano)
Ferrando - Marco Alves dos Santos (tenor)
Guglielmo - João Merino (barítono)
Don Alfonso - Alexis Heath (baixo)

Direcção Musical - Vera Batista
Ensable Contemporaneus
Encenação - Helena Estanislau

A acção, que segundo o libretto de Lorenzo da Ponte decorre em Nápoles no final do sec. XVIII, foi transposta por Helena Estanislau para o tempo actual, num cenário único e minimalista que se manteve durante toda a récita. Estamos evidentemente a falar de uma produção de baixo orçamento, que não permite grandes efeitos cénicos, no entanto, o libretto não foi nada desvirtuado por isso. Uma mesa, duas cadeiras, um banco comprido a meio do palco e umas palmeiras em vaso, criaram um bom ambiente. As legendas foram projectadas no interior do palco na parte de cima de uma uma tela azul.

O Ensamble Contemporaneus (orquestra de pequena dimensão) esteve bem durante toda a récita, a direcção de Vera Batista teve o dinamismo que esta ópera requer e a coordenação com os cantores foi sempre bastante boa.

Antes de comentar as vozes, gostaria de referir que todos os cantores são muito jovens e com carreiras relativamente curtas, logo todos os comentários são feitos tendo em consideração que há ainda um processo evolutivo a fazer do ponto de vista vocal e cénico.

Carmen Matos (Fiordiligi) - O jovem soprano tem uma voz ligeira de timbre agradável e com maleabilidade. Denoto-lhe, no entanto, um vibrato excessivo no registo agudo. Nada que tenha comprometido a sua prestação no papel de Fiordiligi que é, sem sombra de dúvida, o mais difícil de Così fan tutte. Esteve bem na ária do primeiro acto, apenas lhe notei alguma dificuldade no registo mais grave (Mozart escreveu notas muito graves nesta ária). A ária é muito bela, mas a encenação não ajudou a cantora uma vez que todos os outros cantores se encontravam em cena a executar movimentos cómicos que distraíram o público. Na segunda ária, Carmen Matos esteve melhor. Desta vez, sozinha e palco, a cantora interpretou a dificílima ária Per pietá com convicção, sem qualquer esforço e sem grandes dificuldades no registo grave. Este foi, sem dúvida um dos pontos altos da noite.

Magarida Marreiros (Dorabella) - Outro jovem soprano, de voz mais lírica (lírico-ligeiro), interpretou Dorabella que Mozart escreveu para mezzo-soprano. Embora tenha gostado da interpretação, achei o timbre da Margarida Marreiro um pouco duro e o terminar das frases, nalgumas situações, algo descuidado. O papel de Dorabella não tem grandes árias como o de Fiordiligi, onde a cantora pudesse mostrar todo o seu potencial, de qualquer forma, achei-a particularmente bem em dueto e nos ensambles, com a sua voz sempre audível e afinada. 

Joana Gil (Despina) - O papel de Despenia foi interpretado pelo soprano Joana Gil. A sua voz é muito bem timbrada e uniforme. As notas agudas são vibrantes e limpas e o registo grave é bastante bem suportado. Do ponto do vista cénico a cantora esteve excelente e as alterações vocais que introduziu ao interpretar o médico e o notário foram extraordinárias. Confesso que gostaria de ter oportunidade de ouvir a Joana num papel maior.

Marco Alves dos Santos (Ferrando) - Outro cantor de belo timbre e com qualidades vocais muito boas para a interpretação dos papeis para tenor de Mozart. A voz é leve e clara, e varia muito bem entre o piano e forte. Os agudos são fáceis e brilhantes e potentes. O cantor esteve muito bem a solo e em dueto, no entanto, gostaria de tê-lo ouvido melhor nos ensambles.

João Merino (Guglielmo) - O papel de Guglielmo for interpretado magnificamente pelo barítono João Merino. O cantor tem um excelente timbre, mantendo a cor e a qualidade da voz em todos os registos. Esteve particularmente bem na ária do segundo acto, que interpretou na plateia junto com o público, para além disso, a sua voz foi sempre audível nos ensambles. Para além das excelentes qualidades vocais, João Merino esteve também muito bem do ponto de vista cénico.

Alexis Heath (Don Alfonso) - Don Alfonso foi interpretado pelo venezuelano Alexis Heath. Gostei-lhe do timbre, mas achei a voz pouco potente e com alguma dificuldade no registo agudo. Não consegui perceber se o cantor é mesmo um barítono (como vem identificado no folheto explicativo) ou um baixo-barítono. Vi no seu currículum que já interpretou também o papel de Guglielmo nesta ópera, cuja tessitura é mais aguda que a do papel de Don Alfonso.

(Marco Alves dos Santos, Margarida Marreiros, Carmen Matos, Vera Batista, João Merino, Joana Gil, Alexis Heath)


Globalmente considero que este Così fa tutte teve uma qualidade muito boa e foi, sem dúvida, um prazer assistir a esta récita no "meu " Alentejo.
Como os meus leitores sabem, gosto de acompanhar o trabalho dos jovens cantores portugueses que tantas dificuldades têm em fazer carreira no nosso país. Pelo que pude ver nesta récita, há mais uma série de cantores a que vale a pena estar atento. Voltarei a falar deles aqui sempre que se justificar.

Uma última palavra para o público de Portalegre, que se portou muito bem e parece ter apreciado o espectáculo (ainda houve umas tosses, mas nada que tivesse incomodado). Gostei particularmente do facto de estarem presentes crianças cujo comportamento foi irrepreensível.

Espero voltar à ópera em Portalegre.

domingo, 3 de abril de 2011

A Bolena de Netrebko

Como referi aqui no Outras Escritas, ontem consegui ouvir via Internet os segundo e terceiro actos da ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti, nova produção da Wiener Staatsoper (Ópera de Viena).

O facto de o papel de Anna Bolena ser pela primeira vez interpretado pelo soprano Anna Netrebko, fazia da estreia de ontem um ponto alto da temporada de Viena.

Como é sabido, não aprecio as interpretações deste soprano no repertório de belcanto. No entanto, pelo que ouvi ontem, Anna Netrebko não esteve nada mal. Com sua voz escura, a cantora esteve muito bem nas passagens mais graves e, conscientemente, evitou quase todas as notas sobre-agudas, excepção feita na ária Al dolce guidame que terminou com um agudo na dominante que não é nada comum. Esta ária será das mais difíceis de toda a ópera e Netrebko interpretou-a bastante bem, mas evidenciando alguma deficiência ao nível das respirações.

Garanca interpretou Giovanna Seymour tão bem como em Barcelona. O dueto com Netrebko foi um dos pontos altos da récita, tendo recebido o merecido aplauso do público. A aria do segundo acto foi magistralmente interpretada, mas sem repetição. Não percebi porquê, uma vez que a cantora não tem quaisquer problemas em fazê-lo como demonstrou em Barcelona.

Francesco Meli foi um Perci convincente embora se tenha esquivado a repetir a ária do terceiro acto e evitado o agudo final.

ldebrando D'Arcangelo foi razoável com Enrico VIII, embora nalgumas passagens tenha, aparentemente, alterado a partitura, fazendo uma abordagem mais grave (não tenho bem a certeza deste facto).

A condução de Evelino Pidò e a Filarmónica de Viena foram excelentes.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Anna Bolena (Gaetano Donizetti) - Teatro del Liceu (Barcelona) 05/03/2011

No passado dia 5 de Março voltei a Barcelona para assistir à última récita da ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti, incluida na actual temporada do Teatro del Liceu. Este teatro incluí na temporada algumas récitas com elencos alternativos a que chama "funciones populares" e em que são disponibilizados bilhetes a preços mais baixos. Isto não quer dizer que a qualidade dos espectáculos seja inferior.

Inicialmente estava previsto que fosse Marilla Devia a interpretar Anna Bolena e foi este facto que me levou a adquirir bilhete para o Liceu e passagem aérea para Barcelona há muitos meses. Por motivos pessoais, Mariella Devia cancelou e foi substituída por Maria Pia Piscitelli.

O elenco desta récita foi o seguinte:


Anna Bolena - Maria Pia Piscitelli
Giovanna Seymour - Sonia Ganassi
Enrico VIII - Simón Orfila
Lord Ricardo Percy - Gregory Kunde
Smenton - Maria Rodríguez-Cusí
Lord Rochefort - Marc Pujol
Sir Hervey - Jon Plazaola

Direcção musical  - Andry Yurkevych
Encenação - Rafael Duran
Coro e Orquestra do Gran Teatre del Liceu


Da encenação e direcção já falei aqui no Outras Escritas, pelo que este meu comentário vai cingir-se apenas às vozes dos cantores principais.

Maria Pia Piscitelli surpreendeu-me pela positiva. A voz é segura e o timbre agradável. Tem um excelente legatto mas a coloratura é um pouco lenta. A voz é bem suportada no registo grave e por esse facto, a cantora optou sempre por não interpolar notas mais agudas, prática usual nas óperas de bel canto (não houve sobre-agudos em nenhumas das árias).
Gostei particularmente da sua interpretação da ária Al dolce guidami que faz parte da última cena da ópera. 
Como actriz, Piscitelli foi bastante razoável.

Sonia Ganassi, como eu esperava, foi uma excelente Giovanna Seymour. A voz é potente, bela e sobretudo, muito emotiva. Gostei particularmente da sua prestação no dueto de Seymour com Bolena em que foi nitidamente superior a Piscitelli, quer em termos vocais quer cénicos. Na ária do 2º acto, a cantora voltou a destacar-se pela segurança vocal e emotividade cénica.

Gregory Kunde excedeu as minhas expectativas. Para além de uma voz de belo timbre e de agilidade considerável, a voz do tenor tem corpo e volume acima daquilo que eu previa. A sua interpretação da ária do 2º acto foi excelente, nomeadamente com a introdução de variações de muito bom gosto na repetição.

Simón Orfila foi repetente no papel de Enrico VIII. Mantenho a apreciação que lhe fiz na primeira récita a que assisti, mas senti que o cantor estava mais à vontade.

Maria Rodríguez-Cusí tem um bom timbre de contralto e fez um Smenton de qualidade. Notei-lhe, no entanto, algumas falhas nas passagens de coloratura.


Globalmente a récita teve uma boa qualidade, destacando-se as vozes de Sonia Ganassi e Gregory Kunde.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lucia di Lammermoor (Gaetano Donizetti) - Metropolitan Opera (Nova Iorque) 24/02/2010

Lucia di Lammermoor é talvez a ópera mais conhecida de Gaetano Donizetti e um dos pilares do período do bel canto italiano. Esta foi uma das poucas ópera de Donizetti que se manteve sempre nas temporadas líricas um pouco por toda a parte, desde o ano em que estreou (1835 Nápoles).

Até aos anos 50 do século XX, a personagem Lucia era interpretada essencialmente por sopranos ligeiros de coloratura, ou seja, por cantoras com vozes pequenas mas muito ágeis e com um registo agudo brilhante e fácil. A ópera era então considerada pouco dramática e associada apenas aos malabarismos e pirotecnias vocais das cantoras. Foi Maria Callas que iniciou uma nova forma de cantar e representar Lucia no início dos anos 50 do século XX, imprimindo à personagem a carga dramática que lhe está subjacente no libretto de Salvadore Cammarano baseado no romance "A noiva de Lammermoor" de Sir Walter Scott. Em 1959, o soprano Joan Sutherland fez catapultar a sua carreira com uma extraordinária interpretação de Lucia no Covent Garden de Londres. Joan Sutherland é para mim a melhor Lucia de sempre.


Do ponto de vista musical, Lucia di Lammermoor será porventura o expoente máximo do bel canto de Donizetti. Destaca-se, obviamente, a cena de loucura do 3º acto em que Lucia, depois de obrigada a casar com Arturo, resolve num acesso de loucura, assassiná-lo na noite de núpcias. O assassinato ocorre fora de cena, mas de seguida Lucia regressa a palco e interpreta um conjunto de árias de exigência vocal extrema, onde expressa vários estados psíquicos, que vão desde a mais pura insanidade, até à mais suave e bela alucinação.
Como é característico nas óperas de bel canto, é através da voz que se exprimem todas estas formas de estar e sentir. Os estados de maior agitação através de passagens de coloratura e os estados mais serenos através de uma linha melódica aparentemente mais simples, mas que obriga a um domínio absoluto do legatto e da beleza tímbrica.

Actualmente Lucia di Lammermoor é posta em cena com alguma frequência e interpretada sopranos ligeiros de coloratura, líricos-ligeiros e mesmo alguns spintos.

A récita do passado dia 24 de Fevereiro no MET, marcou o regresso de Natalie Dessay como Lucia, numa produção que a cantora tinha já estreado em 2007, na altura com um estrondoso sucesso. Esta produção, com encenação de Mary Zimmerman, tem voltado ao MET regularmente e está disponível em DVD mas com Anna Netrebko (que é incomparavelmente inferior a Dessay neste tipo de repertório).

O elenco foi o seguinte:

Lucia: Natalie Dessay
Edgardo: Joseph Calleja
Lord Enrico Ashton: Ludovic Tézier
Raimondo: Kwangchul Youn
Alisa: Theodora Hanslowe
Arturo: Matthew Plenk

Direcção: Patrick Summers
Encenação: Mary Zimmerman

Coro e Orquestra da Metropolitan Opera


A encenação de Zimmerman, sobejamente conhecida pelo lançamento em DVD, pareceu-me simples e extremamente eficaz. Na cena de loucura foi usada a "tradicional" escadaria que Lucia desce depois de assassinar Arturo, que produz um efeito visual forte e ajuda as cantoras na interpretação (ficou famosa a interpretação de Joan Sutherland que no final da cena se atirava pela escadaria).

Natalie Dessay é sobejamente conhecida como uma Lucia de referência. A voz, ligeira, clara e de timbre agradável adapta-se perfeitamente à partitura de Donizetti e, para além disso, a cantora é uma actriz extraordinária. Este último facto não é propriamente um elogio da minha parte, uma vez que considero  que os movimentos em palco de Dessay, muitas vezes usados em excesso, prejudicam a emissão sonora.
Na noite de 24 de Fevereiro, penso que a cantora não esteve no seu melhor no que às condições vocais diz respeito. Ao contrário do que tenho visto em gravações, pareceu-me ter estado muitas vezes com uma atitude defensiva e, por isso, pouco à vontade. Não quero dizer com isto que a interpretação não tenha sido de um nível superior, de qualquer forma, ficou abaixo das minhas expectativas (tenho como referência a sua Lucia de 2007 que ouvi através da Antena 2).
No primeiro acto, a ária Regnava nel silenzio foi interpretada sem falhas, mas denotei uma certa dificuldade no registo agudo, que poderá ter-se devido ao facto de a voz estar ainda um pouco fria. No dueto com Edgardo houve melhorias significativas, tendo sido este um dos melhores momentos da noite. 
No famoso sexteto que encerra o segundo acto, e que é um dos pontos altos da ópera, Dessay não me impressionou. Isto pode dever-se ao facto de as "Lucias" que tenho como referência, terem vozes maiores que a sua e, por isso, estar habituado a que o sexteto seja em grande parte dominado pela voz de soprano. Houve partes em que deixei de ouvir a cantora e mesmo o sobre-agudo final foi abafado pelas outras vozes.
Finalmente a cena de loucura. Aqui Dessay esteve realmente bem, demonstrando todas as suas capacidades vocais e cénicas. Gostei particularmente da interpretação de Ardon gl' incesi à qual a cantora imprimiu um carga dramática brutal. Executou tal como em 2001 toda a cadência final sem qualquer suporte orquestral (o diálogo com a flauta, foi transformado num extraordinário monólogo vocal). Todos os pontos menos bons de Dessay durante a récita foram compensados em dobro nesta parte da ópera. Curiosamente o público do MET não aplaudiu a cantora nesta altura, talvez porque tenha sido omitido o habitual mi bemol sobre-agudo. Para mim, que até aprecio bastante notas sobre-agudas, Dessay merecia um aplauso de pé. A cena termina com Spargi d'amaro pianto, aria bastante mais agitada que a anterior, esta sim com mi bemol sobre-agudo no final a que se seguiu o merecido aplauso.

A surpresa da noite foi para mim, Joseph Calleja. O tenor, cuja carreira não tenho acompanhado, tem uma voz grande, com bastante corpo e de timbre belo (denoto-lhe apenas algum de vibrato em excesso). Encheu o MET! 
A partitura de Edgardo não está escrita propriamente para um tenor ligeiro, uma vez que quase não existem quase passagens de coloratura. Calleja provou que a sua voz de tenor lírico se adapta perfeitamente a esta personagem mantendo uma prestação uniforme e de nível superior durante toda a récita. Gostaria de destacar as suas prestações soberbas no dueto com Enrico que abre o terceiro acto, que é muitas vezes omitido da ópera, e em toda a cena final também do terceiro acto. Lucia di Lammermoor coloca ao tenor que interpreta Edgardo, o desafio de ter que interpretar uma cena inteira depois da cena de loucura do soprano. Calleja venceu este desafio com distinção e foi, na minha opinião, o melhor cantor da noite.

Ludovic Tézier fez um excelente Enrico, mantendo um timbre poderoso e escuro, mesmo nas passagens mais agudas em que por vezes os barítonos tendem a deixar a voz tornar-se demasiado clara ou brilhante. Gostei da sua prestação na primeira cena do primeiro acto, mas penso que atingiu o auge no duetto com Edgardo que inicia o terceiro acto.

Kwangchul Youn fez também um excelente Raimondo, o papel mais pequeno de entre as quatro personagens principais desta ópera. O baixo, de timbre escuro e potente destacou-se no dueto com Lucia no segundo acto. Durante o sexteto a sua voz foi sempre audível, o que muitas vezes não acontece nestes casos, visto que as vozes mais agudas e vibrantes tendem a sobressair.

O Maestro Patrick Summers fez um excelente trabalho á frente da Orquestra do MET. Gostei particularmente dos tempos utilizados e da interacção da orquestra com Dessay na cena de loucura.

Devo notar que este regresso de Dessay ao MET com Lucia di Lammermoor não tem merecido as melhores críticas. Curiosamente é na parte cénica que Dessay é mais criticada, pelo facto de aparentemente estar mais "preocupada" com as câmaras de cinema (para projecção em HD noutros teatros) do que com o publico do MET. As câmaras são, a meu ver, um factor perturbador para um cantor (e encenador), uma vez que ele tem noção de que a há muitos pormenores na sua face e corpo que não são visíveis no teatro e que são acentuados numa tela cinematográfica.

Fico a aguardar com curiosidade os comentários à transmissão directa em HD que terá lugar na Gulbenkian no próximo Sábado. 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Armida (Gioachino Rossini) - Metropolitan Opera (Nova Iorque) 23/02/2011

A récita da ópera Armida do passado dia 23 de Fevereiro, marcou a minha estreia há muito anunciada e desejada no MET de Nova Iorque, porventura o melhor teatro de ópera do mundo (pelos menos as suas óperas contam sempre com elencos de peso, muitas vezes mais pela popularidade dos cantores do que pelas suas qualidades vocais, mas esse é um assunto que não quero discutir agora).




A ópera Armida foi composta por Rossini segundo libretto de Giovanni Schmidt. A acção decorre em Jerusalém durante as cruzadas e tem como protagonista Armida, princesa de Damasco e feiticeira. Relata o seu plano para enfraquecer os cruzados e conquistar o coração do seu líder, Rinaldo, recorrendo às mais variadas artes de feitiçaria. Rinaldo deixa-se enfeitiçar por Armida, mas no final é chamado à razão e liberta-se, indo-se juntar aos seus companheiros cruzados.

Rossini, talvez num acesso de excentricidade que lhe era característico (ainda bem! Digo eu) escreveu Armida para um elenco composto por um soprano (Armida), seis tenores (Rinaldo, Goffredo, Gernando, Eustazio, Ubaldo e Carlo) e dois baixos (Idraote e Astrarotte).

Uma ópera com seis tenores no elenco não é nada comum, e a maior parte dos teatros consegue apresentar Armida com um conjunto de quatro tenores uma vez que Goffredo, Gernando e Eustazio só estão presentes no primeiro acto e Ubaldo e Carlo no terceiro.

O MET será dos poucos teatros que consegue ter seis tenores no elenco, o que faz com que não haja cantores a interpretar duas personagens (pelo menos na récita a que assisti, nalgumas récitas de 2010 Barry Banks interpretou Gernando e Carlo).

Assim, o elenco do dia 23 de Fevereiro foi o seguinte:

Armida: Renée Fleming
Rinaldo: Lawrence Brownlee
Goffredo: John Osborne
Gernando: Antonino Siragusa
Carlo: Barry Banks
Ubaldo: Kobie van Rensburg
Estazio: Yeghishe Manucharyan
Idraote: Peter Volpe
Astrarotte: David Crawford

Direcção: Riccardo Frizza
Encenação: Mary Zimmerman

Coro, Ballet e Orquestra da Metropolitan Opera


A encenação de Mary Zimmerman foi algo controversa quando a produção estreou em Abril de 2010. Durante toda a ópera é utilizada uma "parede" em forma de concha, que torna o imenso palco do MET, um pouco mais acolhedor. Falo do ponto de vista visual e vocal, uma vez que, eventualmente, este elemento em palco ajuda na projecção vocal. O Amor e a Vingança presentes ao longo de toda a ópera, são introduzidos como personagens (destaco particularmente o Amor que é apresentado como um cupido vestido de vermelho).
Globalmente, gostei da encenação reconhecendo que não é fácil, por exemplo, no segundo acto encenar o palácio dos prazeres, que Armida manda Astradotte (príncipe do inferno) construir como uma ilusão para Rinaldo.

Renée Fleming soprano americano, muitíssimo apreciado no MET, foi Armida em todas as récitas. Aliás, toda a produção foi feita para Fleming e a pedido da própria. 
Do ponto de vista vocal, a cantora assume que não está dentro do repertório onde se sente mais à vontade e que encarnar Armida é para ela um desafio enorme do ponto de vista vocal.
Particularmente gosto da voz de Fleming (esta foi a primeira vez que a ouvi ao vivo). O timbre é bastante escuro e especial. Está no rol de cantores cujo timbre se identifica logo na primeira nota e isso é, para mim, uma característica vocal importante. Outra característica, que considero menos importante, é a de que Fleming é uma excelente actriz e tem, por isso, uma presença em palco muito forte.
Na récita a que assisti, a cantora esteve bem, mas não foi extraordinária. A voz não tem a maleabilidade necessária para interpretar com facilidade as difíceis passagens de coloratura, tão características das óperas de Rossini. Penso até que em certas partes, o andamento foi adaptado à voz da cantora (certamente com alguma boa vontade de Frizza).
Armida, ao contrário da maioria das óperas de Rossini, tem um número de árias reduzido, prevalecendo os duetos e tercetos. Há no entanto, a meio do segundo acto, uma ária dificílima a interpretar pelo soprano (D'amore al dolce impero). É nesta ária que as cantoras costumam demonstrar todas as suas capacidades vocais, evidenciando especialmente a agilidade nas passagens de mais difícil coloratura. Fleming, terá sido das cantoras com o timbre mais escuro que alguma vez ouvir a interpretar D'amore al dolce impero. O timbre foi um ponto em seu favor, porque imprimiu sensualidade à ária e ajudou na interpretação, no entanto a coloratura deixou muito a desejar. Claro que a cantora teve o bom senso de não introduzir variações, tão características das interpretações de Rossini. Devo notar que em alguns vídeos que existem no YouTube, a Fleming desafina nas notas mais agudas, mas que tal não se passou nesta récita.
Os duetos com Rinaldo e a parte final da ópera foram de qualidade bastante superior. Aqui a cantora, talvez por não enfrentar um desafio vocal tão elevado, pode demonstrar todas as suas capacidades de representação.
Globalmente gostei de Fleming, não a considerando obviamente uma "rossiniana" por excelência.

Rinaldo foi interpretado por outro americano, neste caso o tenor Lawrence Brownlee. O cantor tem vindo nos últimos anos a revelar-se como um especialista em Belcanto e apresenta-se regularmente em óperas de Rossini, Bellini e Donizetti. Era sobre ele que recaía a minha maior curiosidade nesta Armida e o cantor não desiludiu. Foi o melhor da noite. As características principais da voz são o timbre, ligeiro e claro, a agilidade e as notas sobre-agudas brilhantes e fácies. Rinaldo é o principal dos seis tenores de Armida e embora não tendo nenhuma ária ao longo de toda a ópera, é chamado a interpretar duetos e tercetos em que tem que liderar do ponto de vista vocal e cénico. É também o tenor cuja partitura está escrita com a tessitura mais alta e o único que intervêm em todos os actos da ópera.
Brownlee, interpretou um Rinaldo perfeito do ponto de vista vocal. Foi soberbo nos duetos com a Fleming e responsável pelo melhor momento de toda a récita que ocorreu durante o terceiro acto no terceto para três tenores. Para os apreciadores de Rossini, este terceto para tenores constituí uma obra prima do compositor, pela originalidade e beleza da partitura e pelo facto de colocar três vozes idênticas a intervir simultaneamente. Bronwlee comandou todo o terceto e ainda interpolou uma série de sobre-agudos perfeitos.
Do ponto de vista cénico, devo dizer que o cantor se fica pelo razoável e que pode melhorar significativamente a sua prestação, no entanto, o seu desempenho vocal fez-me praticamente esquecer este "pormenor", mas devo notar que, quando Fleming interpretava D'amore al dolce impero, Brownlee é atingido por uma seta do cupido e cai no chão ardendo de paixão. Por momentos, fiquei "distraído" com a má representação cénica de Brownlee, o que, me levou a não prestar atenção à voz de Fleming. Deve isto querer dizer que, nem Brownlee é bom actor, nem Fleming me cativou vocalmente nesta ária.

John Osborn interpretou a personagem Goffredo cuja intervenção se limita ao primeiro acto da ópera. Apesar deste facto, a partitura não é nada simples e exige uma voz com algum corpo, agilidade quanto baste e se possível um registo agudo seguro e brilhante. John Osborn tem todas estas qualidades. Achei a sua intervenção um pouco nervosa de início, mas foi crescendo ao longo do primeiro acto. Foi brilhante na cabaletta onde interpolou uns sobre-agudos de muito boa qualidade. Para além de todas estas características, o timbre é bastante agradável. 
Divide o segundo lugar com Barry Banks, no que respeita à interpretação dos seis tenores.

Antonino Siragusa é um tenor ligeiro que me desapertava alguma curiosidade, mas que no entanto, me desiludiu como Gernando. Esta personagem também só intervém no primeiro acto, mas tem a seu cargo a que é talvez a mais "rossiniana" de todas as árias de Armida (Non soffrirò l'offesa). Para além de agilidade e um registo agudo brilhante e fácil, a ária exige um domínio absoluto do legatto, uma vez que a voz fica várias vezes totalmente exposta em passagens mais lentas. Ao Siragusa faltou volume e projecção vocal. O legatto não me emocionou.

Ubaldo e Carlo são personagens que intervêm no terceiro acto, primeiro em dueto e depois em terceto com Rinaldo. Nesta récita Ubaldo foi Kobie van Rensburg e Carlo foi Barry Banks. A partitura de Ubaldo e está escrita numa tessitura mais baixa que as de Carlo e Rinaldo, o que faz com que o registo agudo para este tenor não seja tão exigente. No entanto, o legatto e a agilidade são importantes. Kobie van Rensburg não esteve à altura. A sua voz é trémula falta-lhe agilidade e por vezes desafina. Já Barry Banks, foi excelente como Carlo. A voz é bem timbrada, ágil e com um registo agudo brilhante e fácil. Como referi, Banks divide o segundo lugar com Osborn nesta récita, aliás, o tenor em algumas récitas de 2010 interpretou simultaneamente Gernado e Carlo, e parece-me ter sido superior a Siragusa.

O sexto tenor foi Yeghishe Manucharyan e interpretou Eustazio. Esta personagem tem uma presença efémera durante o primeiro acto, que se resume praticamente a recitativo acompanhado. O tenor esteve à altura deste pequeno papel, no entanto, não lhe posso avaliar as qualidades vocais devido à sua pequena intervenção.

Também as personagens de Idraote e Astrarotte têm um papel muito secundário na ópera, resumindo-se as suas intervenções a recitativos. Peter Volpe e David Crawford (baixos) estiveram bem, mas, mais uma vez, é praticamente impossível avaliar as suas qualidades voais. Devo destacar no entanto as capacidades físicas de David Crawford, que no segundo acto se comportou como um verdadeiro bailarino, cantando em situações de equilibrio difícil e sendo elevado no ar sucessivamente por outros bailarinos.

O coro do MET esteve extraordinário. Para além de cantar, os elementos participaram activamente na encenação, confundindo-se muitas vezes com o bailarinos (coro masculino como diabos no 2º acto e como feminino como ninfas nos 2º e 3º actos).

O maestro Riccardo Frizza é um especialista em Belcanto e está muito associado a Juan Diego Flórez. A condução e articulação da orquestra com os cantores foram excelentes embora eu pense que o maestro terá feito algumas cedências no ritmo para ir de encontro às capacidades vocais de Fleming.

Uma última nota apenas para referir que achei o MET muito grande, talvez grande demais para interpretação deste tipo de repertório que exige vozes ligeiras.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ainda Gruberova no Liceu de Barcelona - Crítica do El País

No dia em que o FanaticoUm, um dos comentadores habituais do Outras Escritas, vai assistir a uma récita da Anna Bolena com Edita Gruberova no Liceu de Barcelona (para mim ainda faltam mais de três semanas), aqui fica a crítica do El País:



Fantástica batalla de reinas

Uno de los problemas de tener una historia tan larga y lustrosa como la que tiene el Liceo es que al final todo acaba convirtiéndose en aniversario, conmemoración o, como mínimo, rememoración.


Empecemos por este punto. Anna Bolena fue la primera ópera que se representó en el Liceo, en 1847. El título se representó, entre otras ocasiones, en 1947, en el centenario del teatro, en un momento en que la obra estaba totalmente fuera del repertorio. Por Anna Bolena pasó Caballé en 1982 y 10 años más tarde Edita Gruberova cantaba su primera Bolena en el teatro de La Rambla. En aquellas representaciones de 1992 debutó en el Liceo, sustituyendo al titular, un joven Josep Bros.
Anteayer, 18 años más tarde, el título regresaba al Liceo, Gruberova, volvía a enfrentarse al tremebundo papel de la reina inglesa y un tenor, Gregory Kunde, debutaba en el teatro barcelonés sustituyendo precisamente a Bros. Primera conclusión: cantar el papel del tenor en Anna Bolena no es bueno para la salud. Hasta aquí la historia.
Expectativas de diverso género rodeaban esta Anna Bolena. La primera era si Edita Gruberova podría, a sus 64 años, con un papel agotador y erizado de dificultades. El asunto tiene un punto de morbosidad, pero está justificada: el operístico es uno de los pocos cantos naturales que quedan sin trampa tecnológica ni cartón electrónico, y forma parte de la tradición de la ópera ver si los cantantes pueden o no con las partituras.
La otra gran expectativa se situaba en la nueva producción que el Liceo había encargado al mallorquín Rafel Duran, que debutaba en el teatro con este título.
Por Gruberova no hay que preocuparse, queda Edita para rato. Empezó un poco descolocada, pero enseguida se situó y ofreció una actuación fantástica que coronó con una "aria de la locura" final que enardeció al público pese a calar ligeramente el sobreagudo final. El dominio de Gruberova del papel va mucho más allá de lo vocal, posee el personaje y le saca un rendimiento dramático enorme a un libreto plagado de tópicos.
La otra gran triunfadora de la noche fue Elina Garanca en el papel de Giovanna Seymour. La mezzosoprano letona estuvo en todo momento a un nivel altísimo, con una voz bella e imponente, y una afinación exacta. El dúo del segundo acto entre Bolena y Seymour fue lo mejor de la noche, una fantástica batalla entre reinas vocales. El capítulo femenino se completó con la buena actuación de la contralto Sonia Prina en el papel in travesti del músico Smeton.
El capítulo masculino se saldó a un nivel correcto. Gregory Kunde pudo sin dificultades con el papel de Percy y ofreció una buena actuación; Carlo Colombara resultó suficiente, pero poco contundente en lo vocal, en el papel de Enrico VIII, y Simón Orfila despachó muy correctamente el papel de Rochefort. Bien el coro, especialmente el femenino, y suficiente pero sin especial brillo la orquesta, dirigida por Andriy Yurkevych, debutante en la plaza.
La esperada nueva producción recibió algún abucheo, no muchos, y aplausos, tampoco muchos. La producción, más sosona que mala, va de atemporal, como ya es casi norma últimamente, y se ambienta en un espacio de luz cálida, que nos remite al concepto de prisión de lujo; esto se acrecienta con la presencia de unas cámaras de vídeo que a modo de Gran Hermano vigilan constantemente a los personajes. Unos figurantes disfrazados de cuervos rememoran las célebres aves de la torre de Londres, donde se ambienta parte de la acción, y trasiegan arriba y abajo mesas, sillas y atrezzo. La dramaturgia de personajes y situaciones fue convencional y, aunque con el belcantismomás vale dejar las cosas como están y no meterse en camisa de once varas, se esperaba algo más elaborado.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Mais uma crítica do Lavanguardia sobre a ópera Anna Bolena com Edita Gruberova -- El elixir Gruberóvico


CRÍTICA DE ÓPERA
El elixir Gruberóvico

Anna Bolena  - ROGER ALIER

La Gruberova todavía tiene pendiente al público de los prodigios de su voz de soprano ligera
Autores: Gaetano Donizetti, sobre libreto de Felice Romani Intérpretes: Edita Gruberova (Anna Bolena); Elina Garanca (Giovanna Seymour); Carlo Colombara (Enrico VIII); Gregory Kunde (Enrico Percy); Simon Orfila (Rochefort); Sonia Prina (Smeton); Sir Hervey (Ion Plazaola). Coro y Orquestra Simfònica del Gran Teatre del Liceu. Dir. del coro: José L. Basso. Dir. de orquesta: Andriy Yurkevych.

Producción: Gran Teatre del Liceu. Dirección escénica: Rafael Duran. Escenografía: Rafael Lladó. Vestuario: Lluc Castells. Luces: Albert Faura.

Lugar y fecha: Liceu (20/ I/ 2011)

Con carácter de solemnidad se ha repuesto en el Liceu la primera ópera que se estrenó en el teatro en 1847, y primer paso de Donizetti hacia la ópera romántica, con un tema que volvería a usar mucho: la monarquía inglesa (la censura católica de Italia permitía que quedase mal en escena por cismática y pecadora). Esta primera vez Donizetti no había llegado todavía a dominar el género y Anna Bolena tiene pocos momentos álgidos pero la escena final de Anna nos compensa de la retórica de otros pasajes. En el Liceu fue también exhumada Anna Bolena con motivo del centenario del teatro (1947) en unos años en que Donizetti estaba casi proscrito y fue un milagro poderla montar. En cambio, ahora el Liceu ha tenido un equipo muy solvente, encabezado por el elixir vocal que destila Edita Gruberova, que ya la había cantado hace casi veinte años y que todavía ha conseguido tener pendiente al público de los prodigios de su voz de soprano ligera y sobre todo ha fascinado en su famosa escena final, cantada tumbada sobre una escalinata (en 1992 lo cantó echada en el suelo). Es cierto que el paso de los años ha dejado huellas en la voz de la cantante, pero conserva esa musicalidad exquisita, ese canto de gradación sonora fascinante y esa elegancia en la interpretación de la reina anglicana víctima del colérico rey Tudor. Y por eso al término de la sensacional aria (que no llega a ser de locura, sino de mera obnubilación ante la muerte inminente), los bravos y los vítores han llenado la sala y la gran artista eslovaca ha tenido que saludar repetidamente con todo el equipo. La acompañó en escena la mezzosoprano letona (y gibraltareña por matrimonio) Elina Garanca, quien se dio a conocer hace pocos años en unas funciones mozartianas en Salzburgo (e intervino en La clemenza di Tito de hace pocos años en el Liceu) y ha sido una excelente Giovanna Seymour; su físico atractivo y su gran estatura se correspondieron con una actuación de primer nivel, con una voz fresca y flexible de mezzosoprano, que supo combinar con la de Gruberova con eficacia y musicalidad. Como Enrico VIII (papel de bajo que carece de arias pero canta importantes dúos), hemos tenido al sólido bajo Carlo Colombara, recordado en la casa por sus Gioconda y Aida recientes, y que con su actuación nos ha disimulado que es casi demasiado joven para el papel del tiránico monarca inglés. Josep Bros tenía que haber cantado el papel de Percy (que ya cantó en la anterior Bolena de 1992), pero por prescripción facultativa ha tenido que renunciar a esta primera función, aunque se le verá en las restantes. En su lugar hemos oído al convincente tenor alemán Gregory Kunde, quien exhibió una profusión de sobreagudos (varios do de pecho entre ellos) resueltos con una voz limpia y grata. Muy notable, con grato timbre de contralto, la italiana Sonia Prina como Smeton y eficacísimo Simon Orfila en el breve rol de Lord Rochefort, así como Ion Plazaola como Hervey. El coro estuvo eficaz y comedido y la orquesta sonó con elegancia bajo la batuta del maestro Yurkevych. Podían evitarse, sin embargo, las campanadas brutales de la escena final. La producción, no muy afortunada, insiste en la moda de presentar animales en escena (un grupo de cuervos cuyo obvio significado acaba cansando con su alusión a la torre de Londres, y unos elegantes perros de caza), pero reduce el espacio de actuación casi siempre a los cinco metros delanteros del escenario (tenemos un teatro algo más grande, ¿no?) y duplica la escena con unas insistentes proyecciones - en blanco y negro-dos metros por encima de la escena. Buenas luces y vestuario a ratos pasable, a ratos no, completan esta ópera tan importante para el Liceu.